Carne Bovina Argentina Está de Volta ao Jogo

Nos rebanhos de gado bovino da Argentina, as fêmeas ganharam importância com o novo governo e chegam para o abate em menor quantidade que os machos, num claro sinal de que a procriação voltou a ser prioridade. “Vamos guardar mais nossas vacas ao invés de mandá-las para o açougue, como fazíamos”, diz o pecuarista Santiago del Solar. Livres das travas que desestimularam a agropecuária durante quase todo o ciclo kirchnerista, os argentinos já se preparam para voltar a elevar a produção e a exportação de carne bovina.

Boi_thumbAinda que preocupe o Uruguai, que durante a paralisia argentina roubou mercados do vizinho no exterior, não será nada capaz de incomodar o Brasil, que ganhou musculatura no segmento e lidera as exportações globais. O estoque de gado brasileiro hoje é quatro vezes superior ao da Argentina, e o volume das exportações em 2015 foi mais de oito vezes maior. As restrições às vendas externas no governo de Cristina Kirchner levaram o país a despencar, em menos de uma década, do 3º para o 13º lugar no ranking de exportadores do produto, lembra Ernesto Ambrosetti, economista-chefe da Sociedade Rural Argentina.

Mas as coisas mudaram desde 14 de dezembro. Foi quando, três dias após tomar posse, o presidente Mauricio Macri anunciou o fim das restrições às exportações de carne, trigo e milho e a eliminação gradual das travas da soja. Como se despertassem de um sono profundo, os produtores arregaçaram as mangas.

Em dois meses, o percentual de vacas enviadas para o abate caiu de 45% para 39%, observa Cristian Feldkamp, responsável pela área de gado da Associação Argentina de Consórcios Regionais de Experimentação Agrícola (AACREA). Mas, como nesse segmento o tempo biológico precisa ser respeitado, serão necessários pelo menos seis anos para o país recuperar o nível de estoque de 2007, ano que antecedeu o início do governo de Cristina. Desde então, o estoque argentino caiu de 58 milhões para 52 milhões de cabeças, enquanto o brasileiro aumentou de 193 milhões para 208 milhões. Maior indústria de carne bovina da Argentina, a brasileira JBS concorda que a recuperação do rebanho será gradual e levará até quatro anos, conforme Gustavo Kahl, que comanda as operações da empresa no país.

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Isso não quer dizer, no entanto, que os argentinos se dão por vencidos. Sabem que não têm chances, neste momento, de competir em volume com grandes produtores, como Brasil e EUA. Mas vão atacar nichos, aproveitando que sua carne tenra é um dos pratos favoritos nos melhores restaurantes do mundo. Nesse sentido, o mercado externo talvez seja a maior motivação para que os criadores se preparem para acelerar a engorda dos novilhos.

Embora também explorem a exportação de cortes nobres e estejam preocupados com a recuperação argentina, os uruguaios talvez não precisem temer o provável aumento da concorrência, segundo Feldkamp. “Há mercado para todos. A China, por exemplo, está ávida por carne e isso não deve mudar, mesmo com a crise”, diz. Alemanha e Inglaterra são atualmente os maiores consumidores da carne argentina.

Com o fim das travas, espera-se que a exportação dobre em quatro anos. Mas o volume ainda é pequeno. Em 2015, quando os embarques somaram 200 mil toneladas, o mercado externo absorveu 7% da produção de carne bovina argentina. A fatia tende a subir para 14% ou 15% até 2019, segundo Feldkamp. Para Kahl, da JBS, as exportações argentinas tendem a voltar ao patamar de 20% da produção total. Na esteira dessa recuperação, a companhia prepara a ampliação dos abates e a reabertura de unidades (ver JBS amplia abate e planeja reabrir quatro frigoríficos).

“A média das exportações argentinas nos últimos 40 anos é de 500 mil toneladas anuais. Se conseguirmos chegar a 700 mil em 2022, isso não representará mais do que 7% do mercado mundial”, diz Feldkamp. O volume exportado pela Argentina é o menor do Mercosul. Conforme a AACREA, os últimos dados comuns disponíveis indicam que em 2014 o Uruguai exportou 245 mil toneladas, o Paraguai, 277,5 mil e o Brasil, 1,3 milhão.

Embora o período kirchnerista tenha castigado o campo, para Feldkamp não se pode atribuir só a essa fase a culpa pela paralisia da pecuária do país, sobretudo em relação à produtividade. Ele aponta o vai-e-vem de regras em diversos períodos e as sucessivas instabilidades políticas como outros fatores negativos.

Nos anos 1950 e 1960, o país chegou a registrar um consumo médio per capita de mais de 90 quilos de carne bovina por ano. Mas tempos depois se viu obrigado, por decisões de governos, a privilegiar a exportação. Cristina Kirchner decidiu o contrário. Restringiu a exportação para proteger o mercado interno. Mas o efeito foi desastroso, porque desestimulou a produção e levou a uma queda de oferta no mercado doméstico. Com Macri, os preços de alguns cortes chegaram a subir até 50% em menos de dois meses, o que provocou rebuliço e levou o governo a ameaçar importar carne.

Para Feldkamp – que também é criador e, como pesquisador, conhece a pecuária de vários países -, esse seria o momento ideal para as técnicas de ganho de eficiência compensarem as limitações de expansão. Mas ele lamenta que o nível de produtividade obtido por Austrália e EUA esteja ainda fora do alcance de grande parte dos produtores argentinos e da América Latina em geral.

Embora a carne bovina tenha voltado a ser um negócio com perspectiva de alta rentabilidade na Argentina, o consumo interno deverá continuar em queda. Feldkamp espera uma retração da média atual de 60 quilos consumidos por habitante ao ano para, no máximo, 56 até 2019.

Essa tendência deverá abrir espaço para o maior consumo de frango, como no Brasil. Em 2015, o consumo médio de carne bovina por habitante, no Brasil foi de 30,8 quilos, segundo a Conab. No caso da carne de frango, os argentinos comeram, em média, 42 quilos, enquanto a média dos brasileiros foi de 44,8 quilos.

Outra questão levantada por Feldkamp envolvendo a Argentina é a desproporção entre o crescimento da população e a oferta de gado bovino. Em 2003, véspera do ciclo kirchnerista, o país tinha 1,5 cabeça de gado por habitante, e hoje tem 1,23. O Uruguai tem uma relação de 3,4 cabeças por habitante.

Apesar das mudanças, o argentino não abre mão da proteína animal. Na soma das carnes bovina, de frango e suína, o consumo médio por habitante soma 115 quilos por ano. Mas a população, que resiste o quanto pode antes de dispensar um bom “assado”, terá agora, que voltar a dividir mais seu rebanho com outros países.

 Fonte: Globo Esporte | Luiz Henrique Mendes
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