16/10/2017 - Notícias CNPC

Sanidade animal: entenda o fim da vacinação contra a febre aftosa

Sem focos da doença há mais de uma década, Brasil se prepara para suspender a aplicação da vacina a partir de 2019

A ideia de acabar com a vacinação obrigatória contra a febre aftosa é um dos assuntos mais polêmicos em debate neste ano. A proposta, que já amadureceu e agora parece não ter opositores, ganhou amplo apoio de pecuaristas, associações e até mesmo de representantes da indústria de saúde animal. “O Brasil teve uma eficiência extraordinária no controle da aftosa”, diz Jovelino Mineiro, criador de 2 mil matrizes na Fazenda Sant’anna, em São Paulo e em Minas Gerais, que engrossa o coro de pecuaristas apoiadores do plano. “Eu acho que precisa começar a retirar a vacina, nós não podemos passar o resto da eternidade vacinando contra a febre aftosa.”

A retirada da vacina a partir de 2019, no entanto, faz parte de um robusto plano para fortalecer o status sanitário do Brasil. Ela está entre as 16 ações previstas pelo Programa Nacional de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA). Entre as ações, há o objetivo de fortalecer o sistema de vigilância em saúde animal, ampliar as capacidades dos serviços veterinários e promover a interação com as partes interessadas no programa de prevenção da febre aftosa.

A retirada da vacina

Para Guilherme Henrique Figueiredo Marques, diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura, a vacinação está com os dias contados. Em 2018, o Brasil deve se tornar zona livre de febre aftosa com vacinação. Em seguida, o próximo passo é começar a retirar a vacina em alguns estados. “O produtor já pagou o preço da vacina por muitos anos. Nós investimos em torno de US$ 1 bilhão por ano [na vacinação]”, diz Marques, que também é presidente da Comissão Sul-Americana para a Luta Contra a Febre Aftosa (Cosalfa). De acordo com ele, além do valor das vacinas, esse montante engloba o investimento do governo em fiscalização e serviços veterinários.

Segundo Marques, a vacina não evita o foco das doenças. Um exemplo citado por ele foi quando o Rio Grande do Sul registrou focos de febre aftosa e o país tinha um índice de vacinação superior a 90%. “O fato de usar vacina não exclui a possibilidade de a enfermidade entrar no país. Mesmo que tivéssemos 100% dos bovinos e búfalos vacinados, nós teríamos um universo de animais susceptíveis a febre aftosa”, afirma Marques.

Os argumentos para retirada da vacina são fortes. De acordo com o Conselho Nacional da Pecuária de Corte (CNPC), o Brasil possui um rebanho de 220 milhões de cabeças de gado. Desse total, um rebanho de 118 milhões de cabeças não apresenta focos da doença há mais de 20 anos. E regiões com outras 41 milhões de cabeças estão livres de focos de febre aftosa por um período de 15 a 20 anos.

Vantagens econômicas

Tornar o Brasil zona livre de febre aftosa sem vacinação trará vantagens econômicas, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). “Apoiamos totalmente esse programa do governo”, diz Antônio Jorge Camardelli, presidente da Abiec.

De acordo com ele, a medida pode ajudar a abrir mercados para a carne bovina brasileira, como a Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Indonésia, que representam 30% do consumo mundial. “Eles não aceitam importar de mercados com vacinação de controle da febre aftosa”, afirma Camardelli. “A retirada da vacina pode ajudar o Brasil a incrementar R$ 1 bilhão de dólares anuais [no faturamento com as exportações].”

Saúde animal

Em um primeiro momento, o que se imagina é que os fabricantes de vacinas vão se opor a medida. Porém, supreendentemente, o cenário é outro. Segundo Emilio Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), as empresas já vem se preparando para isso há algum tempo. “Sempre nos posicionamos que não somos e não seremos contra a erradicação da vacina”, afirma Salani.

No Brasil, o setor de saúde animal movimenta R$ 5 bilhões por ano. Do total, de 6% a 8% resultam da vacina contra a febre aftosa. “Essa perda [financeira] que teremos com a vacina vamos recuperar com outros produtos”, diz o vice-presidente do Sindan. Um exemplo citado por ele é a peste suína clássica, que foi erradicada e não causou grandes prejuízos para a indústria de saúde animal.

Apesar de não se opor e afirmar que o país está bem estruturado para seguir com o PNEFA, o Sindan está reticente quanto ao prazo. A principal reivindicação é que o início da retirada da vacina não ocorra em 2019, mas sim em 2020 ou até em 2021. “O Sindan apenas pede ao Mapa que dê um pouco mais de prazo para que se divulguem as ações necessárias e para que todos os governantes, técnicos e estados entendam as responsabilidades de cada um.”

© Copyright 2001 - 2017 - Todos os direitos reservados.
CNPC – Conselho Nacional da Pecuária de Corte
Paradoxo Digital