Vacina contra febre aftosa, um produto em vias de extinção

A extinção da vacinação contra o vírus da febre aftosa no Brasil nunca foi tão real, o que é motivo de comemoração para os pecuaristas mas de grande preocupação para a indústria veterinária. Ainda hoje, a vacina contra a aftosa é o segundo produto mais importante dessa indústria, respondendo por um faturamento anual de R$ 400 milhões – 7% das vendas totais do segmento.

A situação da indústria é delicada, admite Emílio Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). O problema é que, em 2019, o parque industrial brasileiro será capaz de produzir cerca de 1 bilhão de doses de vacinas contra o vírus, ante a capacidade de 700 milhões deste ano. O volume supera em muito a demanda, que é de 330 milhões de doses e não deve parar de cair até ser extinta em 2023.

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Sebastião Costa Guedes – Presidente em Exercício do CNPC

Na semana passada, todo o território nacional recebeu da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) o status de livre de febre aftosa com vacinação. Com isso, o Ministério da Agricultura pode avançar no cronograma para a retirada da vacina. Em 2019, o Estados do Acre e Rondônia deixarão de vacinar, o que deve reduzir a demanda por vacina em mais de 25 milhões de doses, segundo o presidente do Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC), Sebastião Guedes.

Além disso, a redução no tamanho da dose das vacinas determinada pelo ministério agravou a ociosidade das fábricas. A partir da primeira etapa de 2019 da campanha de vacinação, em maio, as vacinas deverão ter 2 ml, e não mais 5 ml. Com isso, a capacidade da indústria foi elevada em mais de 40%, a 1 bilhão de doses.

Não bastasse isso, muitas veterinárias sequer amortizaram os investimentos feitos nessa área. No ano passado, a divisão veterinária da farmacêutica alemã Boehringer inaugurou sua nova fábrica de vacinas. A planta, em Paulínia (SP), custou mais de R$ 150 milhões. O projeto foi idealizado pela Merial antes de a francesa ser vendida para a Boehringer, em meados de 2016.

Além da alemã, outras veterinárias também adquiriram empresas no Brasil que têm na produção de vacinas contra aftosa uma fatia relevante das vendas. O braço de saúde animal da farmacêutica americana MSD concluiu no ano passado a compra da mineira Vallée, em uma transação de quase R$ 1,3 bilhão. A Vallée tem a maior fábrica de vacinas contra aftosa, sendo responsável por mais de 50% das vendas. Em 2016, a francesa Ceva também ingressou no mercado de aftosa, com a aquisição da Inova Biotecnologia.

Ex-executivo da indústria veterinária e hoje defensor ferrenho do fim da vacinação, Sebastião Guedes, do CNPC, não poupa críticas à indústria. “Eles comparam porque acharam que a vacinação seria eterna”, disse, elogiando a disposição do ministro da Agricultura, Blairo Maggi em mudar. Para o Brasil, deixar de vacinar pode representar o ganho de mercados importantes para a carne bovina, como Japão e Coreia do Sul.

Nos bastidores, a relação entre a indústria veterinária e o Ministério da Agricultura não está no melhor momento, e a questão envolvendo as vacinas contra a aftosa explica parte disso. Em 2017, os Estados Unidos embargaram a carne bovina in natura do Brasil em razão da detecção de abscessos (acúmulo de pus) na carne. A reação dos bovinos à vacina foi apontada como um dos motivos dos abscessos. Foi a partir daí que o governo mudou a dose das vacinas.

Neste ano, mais problemas envolvendo as vacinas colocaram em lados opostos, outra vez, o Ministério da Agricultura e as veterinárias. Entre o fim do ano passado e o início de 2018, um volume recorde de cerca de 40 milhões de doses de vacinas foi reprovado nos testes realizados pelo ministério. Essas vacinas pertenciam à MSD e à Boehringer. De acordo com Emílio Salani, as indústrias perderam ao menos R$ 15 milhões com o descarte das doses.

As indústrias veterinárias chegaram a pedir liminar para que o Ministério da Agricultura refizesse os testes, afirmou Janaína Garçone, diretora do departamento de fiscalização de insumos pecuários da Pasta. No caso da Boehringer, os novos testes reprovaram as vacinas pela terceira vez. Segundo a diretora, as vacinas não passaram no teste de potência – que exige uma taxa mínima de 80% para a imunização. Procurada, a MSD informou que ainda pede na Justiça a realização de novos testes.

Ao Valor, o presidente da MSD, Edival Santos, disse que as reprovações fizeram com que os estoques de vacinas ficassem mais apertados, elevando o preço das doses de R$ 1,20 em 2017 a R$ 1,40. Apesar disso, não há risco de desabastecimento. Procurada, a Boehringer não comentou.

Fonte: Valor Econômico | Luiz Henrique Mendes

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